20.9.21

Viva Paulo Freire!

Meu pai foi um dos primeiros cartunistas profissionais do Rio Grande do Sul. Iniciou nos anos 40 e assinava Sampaio. 

Tinha só para ele uma página na Revista do Globo, importante revista gaúcha daquela época, que preenchia com desenhos "de multidão" em situações do dia a dia e em momentos históricos.

Tinha como característica uma brincadeira que fazia com o leitor que, muitos anos antes da publicação de "Onde está Wally", tinha que procurar um homenzinho fazendo xixi (sempre de costas, naturalmente, rsrsrs).

Em 1987 os professores de escolas públicas do Rio Grande do Sul em greve acamparam na praça que fica em frente ao palácio do governo, em Porto Alegre e Sampaio, que já não desenhava mais profissionalmente, retratou este momento.

E quem está no meio da multidão? O grande educador Paulo Freire, que na ontem estaria fazendo 100 anos. 

Tente encontrá-lo, sem olhar a reprodução que está lá embaixo, rsrs 

Abraço a todos!

Maria Lucia

p.s. Infelizmente, as reivindicações hoje ainda são as mesmas..













Achou!





8.8.21

Até um dia, querido Alexandre.

 

Em 1988, trabalhava no CODEC (Conselho de Cultura do Estado) quando conheci o engenheiro responsável pela montagem das arquibancadas de um evento que eu estava produzindo.

Com muito orgulho contou que o filho organizava  as “Semanas Culturais” (não tenho certeza se era este o nome) do Colégio Militar, onde estudava. Pedi que ele falasse com o filho sobre a possibilidade dele trabalhar comigo na preparação do evento. Acho que era a Latinomusica, onde estiveram presentes vários grandes nomes da música deste nosso canto do mundo e entre eles Chico Buarque. Ele nunca apareceu e eu esqueci o assunto.

Dois anos depois, pedi reingresso para o curso de Comunicação da UFRGS e nos primeiros dias de aula conheci o Alexandre. Foi amor à primeira vista.

Um belo dia contou que há uns anos o pai sugeriu que ele procurasse uma amiga que trabalhava no CODEC, onde havia uma possibilidade de estágio. Ele nem pensou em fazer isto porque imaginou que esta amiga do pai não teria nada a ver com ele. E assim nosso encontro foi adiado, rsrsr

No ano anterior eu tinha perdido um grande amigo, um irmão de alma, Alexandre Schneiders da Silva. Quanto mais convivia com meu novo amigo, mais me dava conta das semelhanças entre eles: a inteligência, a sensibilidade, o carinho, a homossexualidade, a profundidade de suas reflexões e o grande amor pela Elis. Quando descobri que o sobrenome era Rocha da Silva, fiquei muito impressionada, era demais, rsrsr.

Não posso dizer que o Alexandre Rocha tenha vindo substituir o outro Alexandre porque cada querido da gente ocupa um lugar especial no nosso coração, mas me ajudou muito a aceitar a ausência. 

Fomos nos conhecendo mais, nos gostando mais, abandonei a faculdade mas não nos abandonamos.

Ele contava que eu fui a primeira pessoa a visitá-lo quando criou asas e foi morar sozinho. E ríamos muito quando nos lembrávamos do dia em que foi estudar na minha casa e eu só ofereci acepipes saudáveis, quando o que ele gostava de comer eram aquelas porcariazinhas industrializadas, rsrs

Riamos muito, sempre ríamos muito quando estávamos juntos. Muitas vezes ele se aprofundava tanto me contando sobre os temas de suas pesquisas que eu precisava pedir para ele parar porque não estava entendendo nada, rsrsrs.

Foi um grande fã e incentivador do meu cantar, muito mesmo e nunca se conformou porque parei de cantar!

Mudei para Florianópolis, mas continuamos juntos. No início deste ano ligou para contar que tinha descoberto um câncer no pâncreas e que teria pouco tempo de vida. Nem sei dizer o que senti, nenhuma palavra pode expressar. Contou também que casaria com o seu amor Daniel e, com alegria, estive com eles na festa virtual que celebrou este momento feliz.

Ontem à noite se foi e deixou mais um lugar vazio no meu e em muitos outros corações.

Vai em paz, querido amigo. 

Te amo pra sempre, Alexandre.



E mais uma destas coincidências! Antes de encontrar o Alexandre, montei para a Prefeitura de Porto Alegre uma exposição sobre o projeto "O Guaíba Vive".

E quem estava na foto, captada pelo fotógrafo da prefeitura, admirando a exposição? 


Ao som de "Cais":

https://youtu.be/uBlyWZrf9JY





7.7.21

Anos multicoloridos!

Anos multicoloridos, é assim que eu qualifico os anos em que estudei na Faculdades de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Mas, foi muito mais do que um período de estudo, foi um tempo de novas experiências, muita diversão e muitas maluquices!

Cheguei lá em 1969, depois de uma breve passagem pelos cursos de física e depois de jornalismo, na Faculdade de Filosofia da mesma universidade. 

Logo  me  senti em casa, entre outras coisas porque conhecia muitos dos novos colegas que já tinham sido meus colegas no Colégio de Aplicação, que era ao lado da faculdade. Nem o trajeto da minha casa até lá não  era novidade.    

Difícil descrever como era  o "clima" da faculdade, mas meu colega Ivan Pinheiro Machado soube definir muito bem: "A faculdade era um imenso bar, naquilo que os bares têm de filosófico, lúdico, quixotesco. Muitos de nós devemos à faculdade não uma profissão, mas uma visão de mundo. Um tempo que foi curto, mas que nos deu pistas de que a vida poderia ser diferente, criativa, justa, divertida." *

Criatividade era o que não faltava por lá! Queríamos sempre inovar, muitas vezes à revelia do que queriam os nossos professores, rsrs  

Em 1970, resolvemos fazer um filme como trabalho da cadeira de História. Foram dois os diretores: Joqa Medeiros, estudante de Física e dono da filmadora e Carlos Alberto Gravina, nosso colega, um cara genial que foi embora cedo demais. Os atores éramos nós, os estudantes de várias séries. Agora, não consigo reconhecer alguns dos colegas, uma pena...

Quanto ao filme, não tenho bem certeza se foi feito em 8mm ou em Super 8, mas só lembro que houve muito improvisos técnicos. Foi graças ao Gravina que conservou o vídeo que agora podemos matar a saudade daqueles tempos.

Para ver no Youtube é só clicar na palavra "Youtube". Divirtam-se!

Abraços a todos, Maria Lucia





p.s. em 2002, foi a comemoração  dos 50  anos da faculdade. Pensamos em apresentar  o vídeo, mas a comissão dos festejos não gostou da ideia. Naquele ano, Joqa (à esquerda) e Gravina:



 

18.6.21

A festa do meu cinquentenário!

Não faz muito, me dei conta de que não tinha escrito nada sobre a comemoração meus 50 anos com o show “50 anos esta noite”, onde cantei sozinha pela primeira vez.

Até então, que eu me lembre, só tinha cantado em grupo: no “Orfeão Artístico” do Colégio PIO XII, no Coral de Câmara do Rio Grande do Sul”, como vocalista no show “Não Misture” dos gaúchos Giba Giba e Toneco da Costa, e no vocal que criei com amigos.

Sempre gostei muito de cantar e fui me acostumando a escutar as pessoas dizerem que eu tinha uma bela voz. Acho que foi com a proximidade dos 50 anos que me deu vontade e coragem para mostrar um pouco de mim, através da minha voz, e de partilhar com os amigos a emoção e a alegria que a música me proporciona.

Tudo começou com a minha sutil expulsão do grupo vocal que eu tinha criado e que meus filhos e minha tia tinham dado o nome. Nossos objetivos eram muito diferentes...

Mas, sabem aquela história antiga dos "males que vêm para bem"? Estávamos na metade de 1996 e resolvi estudar canto com a Andrea Augustin, para não parar de cantar.

No ano seguinte eu faria 50 anos e o meu desejo era fazer uma “festa de arromba” e começou a crescer a minha vontade de comemorar cantando.

Foram Fernando do Ó e Maria Amélia Barbosa, então sua esposa, que primeiro me incentivaram a fazer um show de aniversário. Fui me entusiasmando... Alguns amigos duvidaram e outros acharam que eu estava doida.

Naquela época, havia na Rádio Cultura de Porto Alegre o excelente programa de entrevistas “As músicas que fizeram a sua cabeça” e conversando com a Vera Spolidoro, concluímos que esta deveria ser a tônica do show: cantar as músicas da minha vida.

Eu já estava convencida do que queria fazer, e a cereja do bolo que tornou possível o show foi um fundo de garantia que recebi. Oba! Agora, era só começar a planejar!

Eu queria que os músicos que estivessem comigo fossem, além de muito bons, pessoas próximas e, por isto, convidei a pianista Dunia Elias, minha companheira d’ A Nossa Casa” e o percussionista Fernando do Ó, um dos meus incentivadores que também tocou violão. 

Eu queria convidar todas as pessoas que desde a minha infância tinham estado perto de mim em algum momento e por isto precisava de um teatro grande, eram muitas! Por isto, escolhi o Renascença que tinha quase 300 lugares.

A escolha de quem faria a sonorização e a iluminação foi óbvia: Bruno Klein e Karrah, que já tinham trabalhado comigo nos tempos do vocal.

Fiz a extensa lista de convidados (morrendo de medo de esquecer alguém) e o passo seguinte seria conseguir seus endereços porque naquele tempo usávamos os Correios para mandar os convites. Até mesmo os meus colegas de trabalho receberiam em casa.

E quem faria o projeto dos convites? Ora, o filho da Hélvia, o artista visual Eduardo Miotto, que também foi responsável pelo programa.

Para esta empreitada convidei a Dirce Ferreira e a Rosane Furtado, que também faria a produção executiva do show.

Lá pelas tantas, o ator Zeca Kiechaloski, amigo da minha amiga Carmen Sommer, ficou sabendo o que eu estava aprontando e quis fazer a direção de cena. Claro que aceitei na hora.

Faltava o cenário e ninguém melhor do que a Jovita Sommer para executar esta tarefa.

A ideia era servir bolo, agua mineral e champanhe para os amigos, mas para desespero das “festeiras” contratadas eu não conseguia prever quantos iriam. É claro que o bolo e a quantidade de champanhe e de água não foram suficientes para servir todo mundo, mas ninguém reclamou.

E as fotos? Ibanes Lemos, meu companheiro de militância.

No processo de escolha do repertório o mais difícil foi chegar às 18 canções porque a música desde sempre esteve presente no meu dia a dia e a minha lista era imensa.

Tudo decidido e lá fui eu rumo ao desconhecido, muito bem acompanhada desta equipe de gente querida!


Até que, finalmente, chegou o dia do show: 28 de outubro de 1997.

Às 7 horas da manhã acordei com a campainha tocando. Era a entrega de uma cesta de café da manhã, o primeiro presente. Um pouquinho cedo, mas, que bom porque eu sempre adorei ganhar presentes. Do resto do dia, não lembro muito, só do Zeca e da Jovita escolhendo o sapato que eu deveria usar e que não era o que eu queria. Obedeci. Ou isto foi dias antes?

Já no teatro, na passagem de som, o Karrah me contou a história de uma pessoa que também fez lá um show para os amigos e só apareceram 10. Ele queria que eu estivesse preparada para o caso de que não saísse como eu esperava, apesar de eu mesma não saber o que esperava.

Eu estava com muito medo, não por causa da quantidade de amigos que estariam lá, mas sim de como eu iria me sair cantando sozinha no palco.

Quase na hora de começar e a Dunia me avisa que deixou as partituras em casa. Foi buscar e chegou a tempo. Enquanto isto, eu fazia exercícios de técnica vocal com a Andrea no camarim.

Naquela noite, mais três pessoas se juntariam à equipe dos meus queridos: Alejandro Massiotti, então companheiro da Dunia, que cantaria comigo a música que me deixava insegura e  Sérgio Karam para abrir o show com seu sax e Sebastião Lima para gravar o show (contra a minha vontade, rsrs), convidados pelo Zeca. 

Hora de começar e Karrah me chama e avisa: “está lotado, tem gente até sentada nas escadas”. E assim foi o show, com o teatro lotado de amigos vibrando comigo. Há coisa melhor?

Depois, na hora dos cumprimentos, muitos abraços e muita emoção com a presença de amigos que eu não via há muito. Amigos se reencontrando e eu feliz, feliz, feliz!

Hoje, vendo o vídeo e as fotos, ainda me emociono. Que bom que o Zeca chamou o Sebastião para “filmar”. Consegui editar o vídeo, com as imagens e o som originais, e me emocionei bastante. 
Espero que gostem!



Muito tenho que agradecer aos que estiveram comigo nesta aventura que deu certo!

E ali começou a minha carreira de cantora, mas essa é outra história.

Grande abraço saudoso a todos.

Maria Lucia


p.s. fiz um álbum com as fotos show feitas pelo amigo Ibanes Lemos. Eu esqueci de explicar que seria um show e ele foi preparado para fotografar uma festa cno Centro de Cultura onde se localiza o teatro. Falha minha...

https://photos.google.com/album/AF1QipPaPkEehjp9TPhfVv7aewhenak71-aF3noohBxW


Dias depois do show, a amiga e fotógrafa Eneida Serrano esteve na minha casa para fazer umas fotos para a revista Caras, mas a Gal Costa visitando a Feira do Livro derrubou a minha matéria, rsrs. Segundo ela, fui a sua segunda "fotografada" a colocar perfume para a sessão! Meu filho Miguel registrou o momento:





6.6.21

Maria Lucia canta no "Roda Som", em 2000

 

Há dois anos consegui passar para MP4 o conteúdo de algumas fitas VHS guardadas há muito tempo.

O processo foi, digamos, um tanto ou quanto a arcaico, rsrs. 

Para isto, o nosso amigo Xikito  (Luiz Francisco Ferreira Caspar) emprestou o seu aparelho de videocassete (lembram do que é?) e o Ricardo, meu filho, me ajudou a  montar a parafernália toda. E foi uma parafernália, mesmo!

O som saia direto para o laptop do meu marido Xico porque o meu resolveu não gravar e a imagem era gravada diretamente da tela da TV com a máquina fotográfica.

Depois, o trabalho de juntar o semblante com o sotaque, a parte mais difícil, me tocou fazer sozinha.

Estou postando o vídeo que terminei de editar hoje e espero que gostem do resultado!

Abraço a todos

p.s. é só clicar no nome do vídeo:

Maria Lucia no "Roda Som" em 2000

Foto do estúdio (rsrsr):





20.4.21

O rei Roberto e a mantissidão

 "Os botões da blusa que você usava e meio confusa desabotoava iam pouco a pouco me deixando ver no meio de tudo um pouco de você.

Nos lençóis macios amantes se dão, travesseiros soltos, roupas pelo chão. Braços que se abraçam, bocas que murmuram palavras de amor enquanto se procuram..."

trecho da música "Os seus botões" de Roberto e Erasmo Carlos, de 1976


Durante muito tempo, quando escutava esta música, ficava imaginando como seria esta mantissidão. E via uma paisagem tranquila, campos verdes, montanhas ao fundo, um céu bem azul, sem nuvens e o que se ouvia era só o silencio, um lugar de muita paz que avistavam da janela...

Até que um belo dia, não lembro quando, li a letra e SURPRESA! A mantissidão era só "amantes se dão" e eu fiquei muito encabulada com a minha patetice, rsrs

Em 2009, o jornalista David Coimbra publicou, no jornal gaúcho Zero Hora, uma crônica com o título de "Os botões da blusa" e um amigo me passou o recorte. Que alívio, não era a única abobada que escutou errado, rsrs. Uma pena, porque a paisagem que eu via era tão bonita! 

"Os botões da blusa

Sabe aquela música do Rei: nos lençóis macios amantes se dão?

Uma amiga minha achava que "amantes se dão" era uma única palavra. Mantissidão. Imaginava que Roberto Carlos cantasse:  Nos lençóis macios, a mantissidão...

Como se nos lençóis macios o Rei e sua companheira sentissem a mantissidão da vida, das coisas do universo, do mundo e do amor. Tem lógica. Você está numa praia, a tarde cai, o dia está ameno, você olha para a linha do horizonte, no fim do mar, e sente a mantissidão o envolvendo, e é bom...

Ou depois de uma noite de orgias você acorda ao meio-dia com a boca pastosa e com uma baita duma mantissidão.

Seja como for, mantissidão é uma bela palavra e deveria existir." (trecho da crônica).

Concordo com ele, esta palavra deveria mesmo existir. E não é interessante que eu e a sua amiga tenhamos tido a mesma sensação?

E hoje, que tanto se fala no Roberto Carlos porque ele está de aniversário, fui procurar no Google a crônica porque só tinha o recorte. E tive outra surpresa: em 2009, no seu blog, meu amigo Emílio Pacheco, também escreveu sobre o tema.*

"A mantissidão

Inspirado por um tópico do Orkut, eu ia escrever uma longa crônica sobre a mantissidão. Mas pesquisei no Google e constatei que vários outros já o fizeram. Não seria uma ideia original. De qualquer forma, é bom saber que não fui o único nos anos 70 a imaginar Roberto Carlos abraçado em sua amada dizendo: 'É tão bom estar aqui com você curtindo esta paz, esta mantissidão...' E tudo por causa da letra de 'Os Seus Botões': 'Os lençóis macios / a mantissidão...'

Não é o máximo! Eu achei, rsrs

E mais esta frase no "blogmanualdoaluno": "Eu me lembro da música Roberto Carlos, em que ele falava da “mantissidão”. Eu cantava a música, mas não sabia o que significava essa palavra. Achava que devia ser algum tipo de calma, um clima de ternura, amor, sei lá."

Moral da história: mais gente sentiu o mesmo que eu.

E por fim, encontrei esta crônica ótima:

http://cuecaazulcalcinha.blogspot.com/2009/12/o-amante-cidao.html

Feliz Aniversário, Roberto Carlos!


Canta Ivete Sangalo:

https://www.youtube.com/watch?v=b1Lt-SUXi7s&ab_channel=AlfredoLeonLeyva


*https://emiliopacheco.blogspot.com/