31.3.12

O golpe e eu









Em 1º de abril de 1964 eu tinha 16 anos, morava em Porto Alegre e já gostava de política. Não era ligada a nenhum grupo, mas, era de esquerda e por isto torcia para que as reformas propostas pelo governo do Jango dessem certo. Sei que é um lugar comum, mas juro que “parece que foi ontem”!
             Tive a sorte de nascer numa família em que a política era um dos temas favoritos. Meu avô Sampaio, pai do meu pai, era um humanista/socialista e simpatizante do PCB. Lá pelos anos 40, Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado, então na clandestinidade, foram seus hóspedes. E isto que ele era um desembargador (mas, nesta época já aposentado)!
              Os almoços de domingo da minha infância eram na casa dos meus avós e a família toda se reunia. Assunto predileto? Política, ora bolas.
               Meu pai (o cartunista Sampaio) simpatizava com o Partido Comunista, meu tio Paulo (o também cartunista SamPaulo) era admirador do Brizola... Resumindo, eram travados maravilhosos e inflamados debates com todos opinando! Minha avó se preocupava porque os vizinhos poderiam pensar que era briga, tal o entusiasmo e o volume das vozes.
              
               Em março de 1964, eu estudava no Colégio Estadual Julio de Castilhos, o Julinho, conhecido núcleo de esquerda de Porto Alegre e era colaboradora do Setor Cultural do Grêmio Estudantil. Lembro que gostava mais de estar na sala do grêmio do que assistindo às aulas, rsrsrs. A “efervescência política” era grande! E, de novo, tenho que usar este lugar comum porque não encontro uma forma melhor para expressar o que vivíamos naquele momento, que era efervescente mesmo!
               Foram bons tempos aqueles...

               Meu pai trabalhava à noite na TV Gaúcha, fazendo ao vivo as charges do “Ringue 12” e do “Show de Notícias”, um dos programas de maior audiência da televisão. Era um jornalista conhecido.
               Na noite de 31 de março de 1964, como em tantas outras, ele saiu da TV com alguns amigos e foi terminar a noite em um restaurante na Rua da República, perto da nossa casa.
                 E sabem qual foi o resultado da noitada?  Na manhã seguinte, dia 1º de abril, minha mãe e eu, com balde, esponja, sabão e paciência, tivemos que limpar os azulejos da parede do bar onde meu pai tinha feito, com pincel atômico, um enorme painel contra o golpe, com milicos enforcados e outros desenhos do tipo!
              
                Pode ser que os mais jovens não saibam, mas este painel significava cadeia na certa. 
                Porque este foi um dos grandes problemas que o golpe de 64 (ou a ré-evolução de 64?) nos trouxe: não sabermos o que era proibido, o que podíamos e o que não podíamos fazer, o que podíamos e o que não podíamos falar, o que podíamos e o que não podíamos ouvir, o que podíamos e o que não podíamos ler, o que podíamos e o que não podíamos pensar.
                  Já, não foram bons tempos aqueles...

7 comentários:

Maria Betânia Ferreira disse...

Foram tristes, tristes tempos. Você teve sorte de saber de cara o que estava acontecendo. Depois eu conto como foi do meu lado, bobeira total de aluna do Bom Conselho em tempos de marchas pelo rosário em família...

Gostei demais do seu relato! Obrigada por compartilhar.

Maria Lucia disse...

Beijo, Betânia Querida!
E, por favor, não deixa de contar a tua história. Fiquei curiosa!

Nina de Oliveira disse...

Muito legal teu blog. Obrigada pela visita láno meu.

Beijos

Maria Lucia disse...

Obrigada, Guria! Muitas vezes vou apreciar as tuas obras e o teu texto sempre bem humorado e inteligente, mas só agora comentei.

Virginia Müzell disse...

Gostei muito Maria Lucia! Eu tinha 12 anos e lembro também como havia, antes de tudo, o medo de fazer algo "errado"...
Precisamos contar tudo isso para esses jovens (ou nem tanto), que não tem a mínima ideia do que seja viver num estado de exceção. Beijos!

Justdu disse...

Maria Lucia, Eu tinha 10 anos e estudava no Moinhos de Vento no Grupo Escolar Uruguai e era véspera do meu aniversário. Lembro que meu pai, redator de política do Correio do Povo chegou muito tarde em casa. Ele habitualmente chegava tarde já que tinha que esperar os telegramas das agências de notícias. Meu paic não era ligado a nenhum partido apesar de ter vínculos com Partido Libertador de Raul Pilla. A minha lembrança mais clara era de minhas tias idosas que moravam na Duque de Caxias e ouviam no rádio as pregações do Padre Peyton, o líder das Marchas por Deus e a Família.

Maria Lucia disse...

Foi mesmo inesquecível para quem viveu!
Não lembro deste padre, mas deve ser porque na minha família todo mundo era herege, rsrsr
Quem era o teu pai? Não seria colega do meu tio SamPaulo no Correio?
Abraço