11.9.15

Tempos de Chile

Escrevi este texto há alguns anos e compartilho com vocês porque em um 11 de setembro, como hoje, o nosso sonho em comum da transição pacífica ao socialismo no Chile acabou com muita violência.

Concepción, 1972


Era julho de 1971 e a minha chegada à Concepción, vinda do Brasil, naquele sábado à tarde, foi assustadora.
Era inverno, fazia frio e chovia muito. Eu e meu companheiro Renato, fomos a uma reunião de estudantes da Universidad de Concepción, onde ele estudava.
Estávamos no sul do Chile e eu não conseguia entender quase nada do que os chilenos falavam. Era muito diferente do castelhano que eu tinha escutado e falado até aquele dia.
Lá pelas tantas, uma correria e alguns gritaram. O chão tinha dado uma tremidinha e este foi meu primeiro temblor.
Mas, não desanimei. Tinha 23 anos e uma vontade enorme de estar ali!

O Chile do Presidente Allende e da Unidad Popular era o sonho de todos os jovens de esquerda da América Latina (ou seria dos jovens de esquerda do mundo?).
O frio intenso, a chuva quase diária, os fortes ventos e os temblores logo entraram na nossa rotina e a comida e os hábitos diferentes também.
Os amigos foram sendo reencontrados e descobertos e a minha vida entrou num novo ritmo. 
Lá fui “dona-de-casa” pela primeira vez. Filha única de mãe filha única e única neta, vivendo na mesma casa com a avó e a bisavó, além dos pais, eu não tinha a menor ideia das tarefas que me aguardavam. Não sabia se alface se comia crua ou cozida... Hoje parece engraçado, mas quando li numa receita “sal a gosto”, e estava sozinha em casa, chorei porque não tinha a menor noção de que quantidade de sal deveria colocar!
Pois é, no início sofri um pouco, mas fui aprendendo. Por sorte, meu companheiro sabia cozinhar e conhecia melhor do que eu as lides domésticas!
Aprendi a cozinhar, a cuidar da casa e até a costurar à mão, coisa que faço até hoje.
Como é mesmo o ditado, “A dor ensina a gemer”? Ensina e eu sou testemunha disto.

Quando chegamos à Concepción éramos poucos brasileiros: Percy e Célia, Jun, Jaime, Bené, Lucio, Fred, Renato e eu. Jaime estava casado com Mitzi, uma chilena; Fred namorava Carmen, também chilena e Jun namorava a argentina Marta. Percy e Célia, já com filhos e um pouco mais velhos do que nós, eram a nossa família.
Depois, mais brasileiros foram chegando e se agregando à nossa pequena “colônia”.
Todos nós estávamos integrados à vida do Chile e à luta dos chilenos.
Eu me sentia chilena e acredito que a maioria de nós também se sentia!
Para mim foi um período de muita alegria, de aprender muito, de viver muito, de sentir muito, de conhecer muito e, principalmente, de estar fazendo parte!

Mas, infelizmente, depois do 11 de setembro de 1973, foi um período de sofrer muito.

2 comentários:

marcelo regius gomes bastos disse...

Lindo texto.Comentarei logo.Bjs.

Maria Lucia disse...

obrigada, Marcelo!