25.11.24

A calça amarela!

 

Era verão de 2001 e uma tarde “daquelas” em Porto Alegre, um calorão que só quem mora lá sabe o horror que é.

Eu trabalhava na Comunicação da prefeitura. Um belo dia, me chamaram na portaria (em geral, eu era chamada nos "momentos complexos") e encontro um senhorzinho esbravejando, furioso. Demorei a entender o que estava acontecendo, até que ele virou de costas e me mostrou a parte detrás das calças: toda manchada de tinta amarela! 

O que aconteceu? Ele quis descansar à sombra e se sentou num banco na Praça Daltro Filho (para quem é da cidade, aquela na frente do Cinema Capitólio). Só que o banco estava recém pintado de amarelíssimo ouro... Como “desgraça pouca é bobagem” ele caminhou oito quadras sob o sol inclemente para chegar até a prefeitura. Imaginem, então, como chegou lá.  

A responsabilidade pela pintura era do Departamento de Limpeza Urbana, órgão da prefeitura, portanto, ele estava no lugar certo. Imaginem a cena: o senhorzinho cansado, suado, furioso e dizendo com muito orgulho que a calça era do Renner.

Depois de conseguir acalmá-lo, entendi que caberia a nós a solução. Sabe-se lá se não era a única calça social dele. Assim, pedi que voltasse trazendo a calça, ainda sem saber como seria resolvido. Convenhamos, a situação era engraçada, não pra ele, é claro, rsrs

Fui conversar com o chefe, já que, ao fim e ao cabo, era ele quem teria que resolver.  Pediu que eu fosse ao Renner para descobrir o valor da calça. Vi e não era nada barata!

O senhorzinho voltou com a calça, mas não havia como resolver o problema administrativamente. O chefe estava brabo porque ele não comprava calças tão caras, rsrs A solução que encontrou foi levar a calça na reunião do secretariado, expor o acontecido e fazer uma “vaquinha”. Deu certo! 

Conclusão: Fui à loja com a vítima, comprei a calça e ele ficou feliz!

Como a calça ficou conosco, quando voltei, vesti por cima do meu jeans e desfilei com ela pela Comunicação, rsrs

E por que escrevo isto hoje? Porque encontrei no Facebook a ilustração perfeita para esta história e me lembrei dela.

Miroslav Barták 


20.11.24

Viva o Dia da Consciência Negra!

 Na minha infância, a bisavó Glória morava conosco. Morreu quando eu tinha 10 anos.

Negra, casou-se com o filho de um alemão e nasceram vários filhos mulatos com sobrenome alemão.

Sua filha, minha avó Elvira, casou-se com o filho de uma espanhola e de um italiano. Me dizia que, se morássemos nos EUA, teríamos que entrar nos ônibus pela porta dos fundos! Nunca entendi muito bem...

Suas amigas mais próximas eram todas negras e mulatas.

Minha mãe, sua filha, casou-se com o filho de um autêntico nobre português e de uma missioneira de São Luiz Gonzaga. Os amigos dos meus avós paternos eram todos brancos.

Mas, eu nunca notei grande diferença entre todos estes personagens da minha infância.

minha bisavó com a minha mãe


Meus filhos tiveram uma babá negra que adoravam.

Uma vez, o nosso cachorro "comeu" quase todos os seus bonequinhos do Play Mobil e só sobraram os bonecos negros.

Eles reclamaram muito, dizendo que "só tinham ficado com bonequinhos negros".

Quando perguntei o porquê desta bobagem, já que convivíamos com uma negra e gostávamos muito dela, a reação foi de espanto.

Até hoje lembro a expressão deles, que nunca tinham se dado conta da diferença na cor da pele...

Eu também, só quando já era adolescente, olhando essa foto da minha bisavó, me dei conta de que ela era negra e bem negra!

Heloisa e os meus meninos

P.S. este texto foi escrito em 2011. Hoje o uso da palavra "mulato" é contestada por parte do Movimento Negro. 





21.10.24

Caneca quebrada!

 Pois é, tudo começou com uma caneca quebrada!

Enviei este vídeo para minha amiga Susana Hausen, arquiteta como eu e minha colega na Prefeitura de Porto Alegre. Usávamos um carimbo com os nossos nomes quando assinávamos os pareceres nos processos. E qual era o sonho dela?  Ter um carimbo escrito "foda-se", rsrs. 

O resto eu conto no vídeo que mandei para a Suzana:

Então, recebi a seguinte resposta:

"Temos que fazer um curso pra formar mágicos. É completamente impossível, ter-se um bom dia neste planeta, caso sejamos pessoas conscientes. É impossível acreditar, que conseguiremos, enquanto humanidade, a reversão de tanto dano causado. Todo mundo acha que haverá solução. A solução já passou da hora! A maldade deste bicho homem é absurda! É como dizia aquele personagem do Jô Soares: "Tira o tubo!"

Estamos quase nos oitenta anos e não temos o direito de sonhar um mundo melhor! Neste quadro terrível estamos todos fodidos e alquebrados. Assim, nada mais digno que uma caneca quebrada. Ela poderá servir para nosso conforto espiritual. Jesus pendurado na cruz é até hoje um símbolo de esperança. Quem sabe uma caneca quebrada, colada e com muitos "foda-se" seja o símbolo da resistência, da esperança e da irreverência. 

Quem sabe tá na hora de se criar a "Igreja do Fôda-se universal". E, adivinha o que estaria no altar? Ela, a caneca fodida!

p.s gostarei muito do presente, pode ter certeza! "

E a minha resposta: "É difícil aceitar a ideia de que os nossos sonhos ficaram no caminho e que esse "mundo melhor" junto com o "homem novo" do Che que acreditamos possível,  deu em nada. Deu em nada? Não, é bem pior, deu neste momento presente que estamos vivendo de ganância, de desrespeito a tudo,  da ausencia dos valores que nos formaram... Portanto, sou parceira na criação na criação da Igreja do Fôda- se Universal!"


24.8.24

24 de agosto


Para mim esta é uma data de muitas recordações.

Em 1954, eu vivia em Porto Alegre e tinha 7 anos quando o presidente Getúlio Vargas se suicidou.

Getúlio, chamado de “Pai dos pobres”, era amado pelo povo trabalhador em função de sua defesa dos direitos trabalhistas e, naquele dia, as manifestações de revolta foram violentas. Para eles, Getúlio havia sido levado ao suicídio pelos seus opositores.

Os “Diários Associados,” uma poderosa empresa nacional de comunicação, desenvolvia uma ferrenha campanha antigetulista em todos os seus veículos (pois é, só mudam as moscas...). Em Porto Alegre, era proprietária de um importante jornal, o “Diário de Notícias”, e da principal emissora de rádio do estado: a “Rádio Farroupilha”.

Morávamos na rua Riachuelo, a algumas quadras da rádio que ficava na rua Duque de Caxias. Quando meu pai ficou sabendo (certamente, pelo rádio) que os manifestantes estavam incendiando o prédio, me pegou pela mão e fomos para lá! Lembro de estar encarapitada nas costas dele para poder ver melhor, rsrs

prédio da Rádio Farroupilha

Depois, fomos até a Rua da Praia e foi a primeira vez em que vi operários de verdade. A expressão do rosto deles me impressionou muito e ainda a tenho na memória. 

Meu avô Sampaio era candidato a governador do Estado pela Frente Popular, composta por partidos de esquerda. Ao lado da nossa casa, havia um comitê da campanha dele e tenho a lembrança da preocupação da minha família, com medo de que fosse depredado. Temiam também que meu avô, que estava em campanha no interior, fosse agredido. Mas, nada disto aconteceu.

 Em 1976, eu vivia em Brasília quando Juscelino Kubitschek morreu (acidente ou assassinado?) no dia 22 de agosto. Estava no final da gravidez do meu primeiro filho. Ernesto Geisel era o “presidente” e estávamos em plena ditadura.  

Houve uma cerimônia no Rio de Janeiro e depois, no dia 24, o corpo foi levado para Brasília para ser enterrado lá.

Meu marido e eu nos postamos num ponto do trajeto em que o cortejo faria do aeroporto até a catedral onde seria velado. Mas não houve cortejo, o caixão foi colocado dentro de uma Kombi que passou em altíssima velocidade, seguida por centenas de carros. Foi uma decepção!

Minha avó Dulce estava em Brasília, para acompanhar o meu parto, hospedada na casa de nossos queridos amigos Majzinha e Chico Meirelles. Eles moravam na Asa Sul, bem pertinho da avenida por onde, no final da tarde, passaria, o caixão com o corpo de Juscelino.

Apesar do tamanho da minha barriga, eu queria participar e minha avó convenceu os demais, que ficaram preocupados, de que eu poderia ir. Pegamos os banquinhos da cozinha e lá fomos nós.

Os milicos programaram que o transporte do caixão até o cemitério seria feito em um carro de bombeiros. Mas, a multidão emocionada de milhares de pessoas não permitiu. Então, o caixão foi levado por eles que cantavam o hino nacional, o “Peixe Vivo” (a música preferida de Juscelino) e gritavam vivas à democracia.

Não lembro se chorei, mas hoje esta vivência me emociona.

No dia seguinte, só alegria, nasceu meu filho Ricardo!

22.5.24

Meus vídeos/ parte I

Como não ando escrevendo nada, resolvi mostrar alguns vídeos meus. 
O primeiro que fiz foi em 2008, usando um programinha bem simples, o "Movie Maker" do Windows. Fui aprendendo e cada vez gostando mais.
Os que compartilho aqui são os vídeos postados no Youtube como "públicos". No meu canal, tenho muitos outros que fiz como registro de momentos importantes da minha vida e da vida da minha  família, presentes para os amigos, enfim muito pessoais.
Até a alguns meses atrás, fiz os vídeos com o mesmo programa gratuíto. Mas, me animei e comprei um mais moderno e com mais ferramentas de edição que estou aprendendo a usar. 
Espero que tenham paciência para ver (são bem curtinhos, rsrs) e que gostem! Abraço a todos


2012:
amanheceres e entardeceres

Miradouro de Dom Pedro de Alcântara/ Lisboa

Avenida dos Aliados / Porto

2013:
A magia de Escher

Morro da Igreja/ Urubici

Bem-vinda primavera!

Entardecer

2014:
Cataratas do Iguaçu

Yo pisaré las calles nuevamente

Oceanário de Lisboa

31.3.24

Fim do mistério!

"Eu sou assim, porque nasci assim, e quem gostar de mim, terá que ser assim, assim, assim... Porque gosto do sol, cinema e futebol e danço o roquenrol vestida de blujins." 

Coloquei estes versos aqui no blog, para responder "quem sou eu", rsrs. São versos de uma música que fez sucesso na minha adolescência,  mas eu não sabia o nome e nem quem cantava, nadinha. 

Revirei a Internet tentando descobrir alguma coisa e não encontrei nem uma indicação, isto que sou considerada uma boa pesquisadora (reencontrei meu atual marido via Google, depois de termos namorado 38 anos antes).

Lá pelas tantas, recebi mensagem de uma jovem que lembrava do pai cantando a tal música e queria alguma informação. Tinha encontrado no meu blog porque também estava buscando.

Cheguei a ficar em dúvida se realmente existiu, rsrs. Quem me convenceu do contrário foi a minha amiga  Maria Betânia F. Champagne que também lembrava.

Lá pelas tantas, coloquei no Facebook a letra completa e perguntei se alguém se lembrava. Esperei um tempão, até que recebi uma resposta de uma pessoa que eu não conhecia e que não era minha "amiga" , a Claudia Vieira. Graças a ela, acabou-se o mistério!

Fiquei bem feliz com a resolução do enigma e com o gesto tão querido da Claudia.

A música se chama "Namorada do sol”, foi lançada em 1960, quem cantava era Sonia Delfino e os autores são Armando Cavalcanti e Klécius Caldas. Os dois são também autores de muitas músicas de carnaval de sucesso nos anos 1950.