14.11.21

Giba Giba na voz de Maria Lucia

Em 2005, apresentei em Porto Alegre, o show “Um outro um - canções de Giba Giba e seus parceiros”, com a participação do Giba, do Toneco da Costa , do Thiago Carretero  e do Giovanni Berti - Perc . Foi gravado ao vivo pelo Bruno Klein .

Dois anos depois, no Porta da Toca Estúdio, gravamos algumas canções, com a participação, além de Toneco da Costa e Tiago Carretero, do Fernando Do O Neto  e do Franco Salvadoretti . A ideia era lançar o trabalho em CD.

Em 2009, vim para Florianópolis e em 2014 o Giba Giba faleceu...

Agora, em 2021, com muita alegria retomei o projeto e daqui a pouco vai estar nas diversas plataformas o álbum “Giba Giba na voz de Maria Lucia” com dez destas canções (seis gravadas em 2007 com a participação de Giba Giba em duas delas e as demais gravadas ao vivo em 2005).

Para melhor divulgar o álbum, foi produzido um clip com a música “Outro um” (parceria de Giba Giba com Xyco Mestre) editado por André Wofchuk, da Colateral Filmes, que agora compartilho com vocês.

Giba Giba foi um grande compositor e seu trabalho não pode ficar sem registro!

Um abraço a todos!

7.11.21

Paris, outubro de 1993

 Hoje, 2 de novembro, “Dia de Finados”, contei para meu neto Gabriel que ia escrever sobre uma viagem que fiz à Paris. A minha ideia é de que ele e os outros netos leiam quando eu não estiver mais por aqui, para se lembrar de mim e se alegrar. No início, ele ficou um pouco assustado, mas depois gostou da ideia. 

Como eu me lembro de como foi a viagem? Porque fazia álbuns que ainda tenho, com fotos, recortes e anotações. Teria muito para contar, mas vou poupar os meus netos e os outros possíveis leitores e tentar resumir, rsrs.


Sempre adorei viajar e foi em 1993 que ganhei um presentão dos meus pais: encontrar em Paris o meu filho Miguel (então com 14 anos), que estava vivendo com o pai na Inglaterra. Eu não o via há seis mese e estava morrendo de saudade. Naquele tempo não havia internet e uma chamada telefônica era caríssima.

Miguel na Inglaterra 

E por que em Paris? Porque lá viviam os amigos Toribio-Schmidt (Schimitão, Mary e seus filhos Rafael e René, que eram amigos do Miguel e Laetícia, então com dois aninhos). Todos me receberam de braços e corações abertos e foi um mês inesquecível e maravilhoso.

Para poder ficar este tempo na França, meu pai e minha mãe tiveram que apresentar no Consulado uma declaração de que arcavam com o custo da viagem. Como arquiteta do governo do Rio Grande do Sul meu salário não era o suficiente para fazer esta viagem.


Dia 3 de outubro cheguei a Paris emocionada e um pouco assustada. O aeroporto parecia estar em outra escala, as escadas rolantes ficavam  dentro de tubos de acrílico, parecia que eu estava em outro planeta. Schimitão estava me esperando e voltamos por uma autoestrada supermoderna. Sim, era mesmo outro planeta, rsrs

Miguel só chegaria dia 7, para ficar até o dia 20. Passamos uns dias em Barcelona, mas isto será uma outra história.

Vista do apartamento dos Toríbio-Schmidt

O apartamento, no sul de Paris, ficava no 21º andar e da janela se via o Pantheon, Notre Dame, o Sacré Coeur e o Arco do Triunfo(que não se vê na foto). À noite se via o Sacré Coeur iluminado!

No dia seguinte, começou a minha aventura. Meu francês aprendido no ginásio e no Yazigi (uma escola de línguas) ainda estava afiado e  então lá fui eu.

Queria começar visitando a Notre Dame. Mary me orientou qual o ônibus eu deveria “pegar” e onde descer. Nem sei descrever o que senti quando vi a catedral ao descer do ônibus, só lembro que não acreditei que eu estava lá, rsrs. Quando entrei me senti em um filme, com a trilha sonora de um coro de meninos e é, claro, chorei muito.

E, nos dias seguintes, segui me maravilhando e me emocionando a cada nova descoberta. As árvores em tons de outono, os monumentos que eu conhecia por fotos e filmes, tudo que eu via fazia eu me sentir em um sonho. Estava muuuuuuuuuuuuuuito feliz!

À noite, ao voltar para casa, jantávamos juntos, eu contava as minhas aventuras do dia, ríamos e era muito bom! Sempre havia alguém na rua ou no metrô que vinha me pedir informações, rsrsr, sei lá porque.

No dia 6, Schimitão me levou para um longo passeio, caminhamos, caminhamos e caminhamos. Passamos pela feira na Rue Mouffetard,  comemos “sanduiche grego”, com carne de ovelha e compramos caranguejos, tudo novidade para mim.


Andava pra lá e pra cá de ônibus e de metrô, mas, havia um problema, rsrs. No metrô, algumas vezes quando eu colocava o ticket para entrar, acendia uma luz branca e aparecia um aviso de que eu deveria colocar de novo, eu obedecia. Então, acendia uma luz vermelha com o aviso de "não válido", soava um apito, a barreira abria e fechava com força e, depois deste escândalo todo, a barreira abria! Todo mundo olhava e eu com cara de tacho morrendo de vergonha. Quando pedi ao funcionário uma explicação soube que isto acontecia com as pessoas que desmagnetizavam o ticket. Então tá...


Fui sozinha e cheia de coragem buscar o Miguel no Charlie de Gaulle e deu tudo certo. Me emocionei muito ao vê-lo, crescido e bonito. Coisa boa poder abraçar o meu filhinho de novo.
!




E lá fomos nós, passear por Paris.
Visitamos o Beaubourg, que o Miguel achou que estava em construção, rsrs. Para entrar, passamos por uma multidão de desenhistas, fazedores de trancinhas, “escrevedores” de nomes em grãos de arroz, punks com caras de maus, sem tetos com seus cachorros... No térreo uma multidão, som alto reverberando e velhinhos sentados conversando calmamante, como se estivessem em uma praça.

https://www.centrepompidou.fr/en/

E lá estavam outra vez as escadas rolantes dentro de tubos transparentes e, na medida em que íamos subindo, a cidade ia se mostrando. Muito emocionante. Vimos obras de artistas contemporâneos, o museu de arte moderna, havia cadeiras confortáveis para ver as obras, tudo tão civilizado!

No final da tarde comemos sorvete Berthillon na Ille Sant Louis. Lugar lindo, pensei em como seria bom me mudar para lá, rsrs

No domingo, 10 de outubro, Miguel, Renê e Rafael foram à Euro Disney. Adoraria ter ido e no dia seguinte, ouvindo as histórias deles, fiquei um pouco arrependida. Mas, quem sabe se eu fosse os meninos não teriam se divertido tanto, livres, leves e soltos? 

Rafael e Miguel


René e Miguel

Ao invés de ir com eles, fui visitar a mãe da Mary (o que foi muito bom) e depois fui caminhar sozinha. Ao anoitecer, apesar de ter um mapa me perdi e foi muito ruim não saber onde estava. Me assustei e foi bom ter durado pouco tempo, a sensação foi muito ruim.

Do álbum aquele que falei lá em cima: “Estou encantada com a boa convivência do moderno com o antigo. É tudo automatizado nesta cidade que tem passado por todos os cantos. Há placas nas ruas e nos prédios contando o que aconteceu naquele lugar, quem viveu ou morreu naquele prédio. Não tem outdoors e nem backlights. Viva!”.



Miguel e eu, comemoramos em Paris os 25 anos do Big Mac!



No dia 11, visitamos a Torre Eiffel. Miguel subiu até a 3ª plataforma e eu até a 2ª (este ingresso era mais barato). Depois, me arrependi porque o Miguel demorou muito para voltar. Impressionante a quantidade de turistas e de vendedores de quinquilharias (que desaparecem quando a polícia chega).



No dia em que fomos visitar o Museu d’ Orsay, Miguel preferiu ficar duas horas me esperando na frente do museu, na companhia da Monalisa.



Lá vi obras de Van Gogh, Toulouse Lautrec, Gauguin, Renoir, Manet e tantas outras que já conhecia dos livros de pintura do meu avô Sampaio, que eu via desde muito pequena na casa dele.

No café ali em frente (que aparece lá atrás na foto), paguei 20 francos por uma Coca Cola que, normalmente, custava  8 francos. E eu já sabia que não se deve comer e nem beber nada no entorno dos museus, rsrs

https://www.musee-orsay.fr/fr

Miguel adorou o Musée de l'Armée, museu da história militar, com uniformes, armas, desenhos, pinturas...



Dia 20, ele voltou para a Inglaterra e eu fiquei muito triste e sem graça.
No dia seguinte, foi dia de descanso e da minha "faxina" geral. Sozinha em casa, cuidei do cabelo, das unhas, do rosto e surpresa: o creme que passei no rosto me deu ALERGIA! Depois de alguns anos foi relançado no Brasil o creme Pond's para a pele e eu deixei para inaugurar lá. Formigava todo o rosto, mas como sempre tenho um antialérgico comigo foi só um susto, mas que susto! 


No domingo, dia 24, Schimitão me levou para mais um passeio à pé. Desta vez me mostrou também as entranhas da cidade, onde moravam os clandestinos, muitos cortiços e pobreza, triste...
No Sacré Coeur havia uma multidão, trocentos pintores vendendo quadros todos iguais e os turistas comprando, comprando, comprando.



Finalmente a minha visita ao Museu do Louvre! Não fui enquanto o Miguel estava comigo porque, em plena adolescência, ele só tinha interesse em ver a Monalisa e mais nada, rsrsr. Eu pagaria o ingresso caro e ele ficaria quantas horas me esperando lá fora? Impraticável.. 

Assim se via "ela":


Sim, rsrs, naquele tempo era assim, uma decepção. A Monalisa dentro de uma caixa de metal, com um vidro à prova de flash e na frente dela um monte de gente.
Um cartaz pedia que não tirassem fotos com flash porque o reflexo atrapalhava a visão dos demais. E adiantava? Claro que não! A luz ficava refletindo nos nossos olhos. 
Reclamei para um funcionário que me pediu para deixar por escrito na recepção e foi o que eu fiz. Me disse que já estava cansado de falar. Ah, este tal do "elemento humano"...
Mas, fiquei deslumbrada com o museu. Eu e toda a torcida do Flamengo, né? Só o prédio já fazia valer a pena a visita.
Fiz algumas fotos de que gosto bastante:





Minha amiga Nara tinha me emprestado um casaco lindo, todo forrado de pele, naturalmente, sintética e na saída do museu tive um problema. Quando entrei, tinha deixado na portaria e quando fui buscar o funcionário quando viu o casaco teve um chilique. Queria porque queria saber quem foi a pessoa que recebeu porque era proibido ficar com casaco de pele. E falava alto e rápido e a história era tão maluca que eu achei que não estava entendendo direito. Pedi que chamassem alguém que falasse castelhano. O funcionário que veio, quando soube que eu era brasileira, começou a dançar e dizer Brasil samba... Virei as costas e saí dali correndo, rsrs.

O Museu Rodin é outra maravilha: o prédio, os jardins e as obras, naturalmente. Coloco esta foto só pra me exibir porque acho linda!


No Dia de Finados, visitei cemitério Pére Lachaise, o mais famoso do mundo. Vendiam uma planta com a localização dos túmulos dos famosos que estão enterrados lá: Modigliani, Yves Montand e Simone Signoret, Balzac, Edith Piaf e Alan Kardec entre outros.
Do meu álbum:


  
De novo, do meu álbum:





Outras fotos minhas, de que gosto:










Como eu passeava sozinha, tenho poucas fotos de euzinha. 




Enfim, foi uma viagem maravilhosa, cheia de alegria, beleza, história e surpresas. Sou muito agradecida aos meus pais e à família Toríbio-Schmidt que me recebeu com tanto carinho e disponibilidade. 

 p.s. dia 5 de novembro voltei para casa. Dois dias antes iniciou uma greve da Air France no Charles de Gaulle e os sindicatos ameaçavam criar um "pandemônio", mas foi só um outro susto, rsrs 




20.9.21

Viva Paulo Freire!

Meu pai foi um dos primeiros cartunistas profissionais do Rio Grande do Sul. Iniciou nos anos 40 e assinava Sampaio. 

Tinha só para ele uma página na Revista do Globo, importante revista gaúcha daquela época, que preenchia com desenhos "de multidão" em situações do dia a dia e em momentos históricos.

Tinha como característica uma brincadeira que fazia com o leitor que, muitos anos antes da publicação de "Onde está Wally", tinha que procurar um homenzinho fazendo xixi (sempre de costas, naturalmente, rsrsrs).

Em 1987 os professores de escolas públicas do Rio Grande do Sul em greve acamparam na praça que fica em frente ao palácio do governo, em Porto Alegre e Sampaio, que já não desenhava mais profissionalmente, retratou este momento.

E quem está no meio da multidão? O grande educador Paulo Freire, que na ontem estaria fazendo 100 anos. 

Tente encontrá-lo, sem olhar a reprodução que está lá embaixo, rsrs 

Abraço a todos!

Maria Lucia

p.s. Infelizmente, as reivindicações hoje ainda são as mesmas..













Achou!





8.8.21

Até um dia, querido Alexandre.

 

Em 1988, trabalhava no CODEC (Conselho de Cultura do Estado) quando conheci o engenheiro responsável pela montagem das arquibancadas de um evento que eu estava produzindo.

Com muito orgulho contou que o filho organizava  as “Semanas Culturais” (não tenho certeza se era este o nome) do Colégio Militar, onde estudava. Pedi que ele falasse com o filho sobre a possibilidade dele trabalhar comigo na preparação do evento. Acho que era a Latinomusica, onde estiveram presentes vários grandes nomes da música deste nosso canto do mundo e entre eles Chico Buarque. Ele nunca apareceu e eu esqueci o assunto.

Dois anos depois, pedi reingresso para o curso de Comunicação da UFRGS e nos primeiros dias de aula conheci o Alexandre. Foi amor à primeira vista.

Um belo dia contou que há uns anos o pai sugeriu que ele procurasse uma amiga que trabalhava no CODEC, onde havia uma possibilidade de estágio. Ele nem pensou em fazer isto porque imaginou que esta amiga do pai não teria nada a ver com ele. E assim nosso encontro foi adiado, rsrsr

No ano anterior eu tinha perdido um grande amigo, um irmão de alma, Alexandre Schneiders da Silva. Quanto mais convivia com meu novo amigo, mais me dava conta das semelhanças entre eles: a inteligência, a sensibilidade, o carinho, a homossexualidade, a profundidade de suas reflexões e o grande amor pela Elis. Quando descobri que o sobrenome era Rocha da Silva, fiquei muito impressionada, era demais, rsrsr.

Não posso dizer que o Alexandre Rocha tenha vindo substituir o outro Alexandre porque cada querido da gente ocupa um lugar especial no nosso coração, mas me ajudou muito a aceitar a ausência. 

Fomos nos conhecendo mais, nos gostando mais, abandonei a faculdade mas não nos abandonamos.

Ele contava que eu fui a primeira pessoa a visitá-lo quando criou asas e foi morar sozinho. E ríamos muito quando nos lembrávamos do dia em que foi estudar na minha casa e eu só ofereci acepipes saudáveis, quando o que ele gostava de comer eram aquelas porcariazinhas industrializadas, rsrs

Riamos muito, sempre ríamos muito quando estávamos juntos. Muitas vezes ele se aprofundava tanto me contando sobre os temas de suas pesquisas que eu precisava pedir para ele parar porque não estava entendendo nada, rsrsrs.

Foi um grande fã e incentivador do meu cantar, muito mesmo e nunca se conformou porque parei de cantar!

Mudei para Florianópolis, mas continuamos juntos. No início deste ano ligou para contar que tinha descoberto um câncer no pâncreas e que teria pouco tempo de vida. Nem sei dizer o que senti, nenhuma palavra pode expressar. Contou também que casaria com o seu amor Daniel e, com alegria, estive com eles na festa virtual que celebrou este momento feliz.

Ontem à noite se foi e deixou mais um lugar vazio no meu e em muitos outros corações.

Vai em paz, querido amigo. 

Te amo pra sempre, Alexandre.



E mais uma destas coincidências! Antes de encontrar o Alexandre, montei para a Prefeitura de Porto Alegre uma exposição sobre o projeto "O Guaíba Vive".

E quem estava na foto, captada pelo fotógrafo da prefeitura, admirando a exposição? 


Ao som de "Cais":

https://youtu.be/uBlyWZrf9JY