"Hay más
verdad en los recuerdos que en la historia."
Remis Ramos Belmar
Com meus pais, embarcando para o Chile/ junho de 1971
Cheguei ao Chile em 1971 para encontrar meu namorado, Renato Dagnino, que havia sido expulso da UFRGS pelo decreto 477 que já estava lá. Nós dois militávamos no movimento estudantil, em Porto Alegre. Ele fazia parte da diretoria do DCE/UFRGS e era presidente do CEUE (Centro dos Estudantes Universitários de Engenharia)e eu, estudante de Arquitetura, era simpatizante de um grupo trotskista.
Minha
chegada a Concepción, no sul do Chile, num sábado à tarde, foi um pouco assustadora. Era
inverno, fazia frio, chovia muito e fomos à Universidad de Concepción participar de uma reunião de estudantes e eu não entendia o que falavam, porque era muito diferente do castelho que eu tinha escutado e falado até aquele
dia.
Mas,
eu tinha 23 anos e uma alegria imensa por estar ali! O Chile do Presidente
Allende, da Unidad Popular, do MIR e da via pacífica para o socialismo, era o sonho de todos os jovens de esquerda da
América Latina (ou seria o sonho de todos os jovens de esquerda do mundo?).
O
frio, a chuva, o vento e os pequenos "temblores" logo entraram na minha rotina,
assim como a comida, o idioma e a cultura. Descobri novos amigos, reencontrei alguns e a vida entrou num ritmo novo e muito bom.
No Chile aprendi
a ser “dona-de-casa”. Filha única de mãe filha única e única neta, morando
com avó e bisavó, além dos pais, eu não tinha a menor ideia de como cuidar de uma casa e de como cozinhar. Não sabia
se alface se comia crua ou cozida e quando li numa receita “sal a gosto”, não sabia a quantidade que deveria colocar porque nunca tinha salgado nada na vida!
No
início sofri um pouco, mas fui aprendendo. Por sorte, Renato sabia
cozinhar, conhecia melhor do que eu as atividades domésticas e me ajudou muito.
Acabei aprendendo a fazer tudo: a cozinhar, limpar e organizar a casa, lavar a roupa e aprendi até a costurar, mas à mão (como faço até hoje). Só muito depois da nossa chegada foi que conseguimos ter uma diarista para nos ajudar.
Minha avó paterna se preocupava porque eu não era uma "mocinha prendada”, mas minha avó materna dizia que “quando eu precisasse, eu aprenderia”. E assim foi. A dor ensina a gemer e ensina mesmo!
Acabei aprendendo a fazer tudo: a cozinhar, limpar e organizar a casa, lavar a roupa e aprendi até a costurar, mas à mão (como faço até hoje). Só muito depois da nossa chegada foi que conseguimos ter uma diarista para nos ajudar.
Minha avó paterna se preocupava porque eu não era uma "mocinha prendada”, mas minha avó materna dizia que “quando eu precisasse, eu aprenderia”. E assim foi. A dor ensina a gemer e ensina mesmo!
Mas,
não entendam mal, eu não era nenhuma “dondoquinha”. O que aconteceu foi que,
até ali, eu me dedicava mais às lides do intelecto, da cultura e do lazer, rsrs.
No Chile, Renato estudava Economia na Universidad de Concepción e trabalhava na Petroquímica Chilena e eu estudava Arquitetura na Universidad Técnica Del Estado e Sociologia na Universidad de Concepción.
Quando
cheguei em Concepción havia poucos brasileiros: Percy e Célia, Jun, Jaime, Bené,
Lucio, Fred, Renato e eu. Jaime já estava casado com a chilena Mitzi; Fred casou em seguida com a também chilena Carmen; Percy e Célia, um pouco mais velhos do que nós, já tinham filhos. Os demais, jovens como nós,
mas solteiros, viviam na moradia estudantil, dentro do campus da Universidad de
Concepción. Um tempo depois, Jun casou com a argentina Marta e Bené com a chilena Tereza. Esta era a nossa família.
Mais
brasileiros foram chegando e se agregando à esta pequena “Colônia”. Estávamos
integrados à vida do Chile e à luta dos chilenos. Eu me sentia comprometida com o Chile e
acredito que a maioria de nós se sentia também!
Apesar da dor do golpe, foi um período de muita alegria, de aprender muito, de viver muito, de
sentir muito, de conhecer muito e, principalmente, de estar fazendo parte!
Casamento do Fred, da esquerda para a direita: Bêne, Jun, Jaime, Marta, Renato e eu, Fred e Carmen, Percy e Célia/ 1971
Golpe
Na
manhã do dia 11 de setembro eu estava sozinha em casa. Renato havia saído cedo
para o trabalho. Eu, como sempre, estava com o rádio ligado e assim pude
escutar o discurso de despedida de Allende, seguido por marchas militares e pelo
comunicado das forças armadas e carabineiros declarando que uma junta militar
havia tomado o poder. Nosso sonho de um mundo novo começava a desmoronar.
Que
desespero! E o que fazer?
Minha
primeira providência foi procurar Tomás, um amigo brasileiro que vivia nas
proximidades e que não tinha rádio. Precisava avisá-lo do golpe e precisava, também, do seu apoio. Não sabia a que horas Renato chegaria em casa e se teria
problemas na Petroquímica que, como todas as estatais, era um reduto da esquerda.
No
rádio, com todas as estações em cadeia nacional, continuavam os comunicados da
junta golpista e as marchas militares. Eu estava com muito medo!
Num
dos comunicados foi instituído o “toque de queda” (toque de recolher), o que
significava que durante sua vigência ninguém poderia aproximar-se das janelas e sair de casa entre às 18 hs e às 6 hs sem um salvo
conduto dado pelos milicos.
Apesar
de morarmos em um bairro de trabalhadores, no nosso edifício havia gente contrária ao governo. “Falta todo!”, reclamavam sem se dar conta de que esta “falta”
era uma poderosa arma da oposição contra o governo da Unidad Popular. Mas, infelizmente, o que bradavam era a mais pura verdade!
Era quase impossível encontrar alguns produtos fundamentais no dia a dia,
como por exemplo: papel higiênico, guardanapos, fósforos, isqueiros, farinha,
açúcar. As gôndolas dos supermercados estavam ficando cada vez mais vazias...
Só que, em volta do mercado públicos havia de tudo com preços
altíssimos para quem quisesse e pudesse comprar no mercado negro!
Quando voltei da casa do Tomás, os vizinhos do apartamento ao lado me convidaram para brindar
com champanhe o fim do governo Allende e eu tive que brindar! Foi doloroso,
mas não havia alternativa naquele momento. Eram meus amigos, conversávamos, trocávamos receitas, mas eu sabia o que pensavam. E por mais estranho que possa parecer, foram estas
mesmas pessoas que me ajudaram a tirar de casa muitos dos nossos livros (em um
dos comunicados, a junta militar proibiu qualquer tipo de publicação de esquerda). Naquele mesmo dia, a vizinha e eu, de braços dados como quem volta das compras, fomos até um terreno baldio e,
procurando não sermos notadas, deixamos lá minhas sacolas cheias de livros. Seu genro, militante
do grupo fascista “Pátria e Libertad”, no dia seguinte, levou para o seu sitio, em sua
caminhonete, mais sacolas com publicações. Ele mesmo se ofereceu dizendo sabia
que Renato estudava economia e que por isto deveríamos ter muitos dos livros que passaram a ser proibidos.
Renato, por sorte, chegou em casa à tarde, são e salvo.
À noitinha, antes do toque de recolher, recebemos em nossa casa dois amigos: Vando, um pernambucano, e
sua companheira chilena Ana Rosa, dirigente da Juventude Comunista de
Concepción, uma figura pública. A Universidad de Concepción tinha sido invadida
pelos militares e como nossos amigos viviam na moradia estudantil não tinham
onde dormir. E na manhã do dia 12, ao saírem, foram vistos pela nossa diarista que, dias mais tarde, nos chantageou. Fomos obrigados a pagar pelo seu
silêncio em dólares. Mas, bem feito pra ela que saiu perdendo! Como já sabíamos que teríamos que
deixar o Chile, pretendíamos presenteá-la
com todos os nossos móveis, nossos utensílios de cozinha e com a nossa geladeira (artigo raro no nosso bairro, presente dos meus pais, assim como o pagamento dela).
Ainda nesta
mesma manhã, um dia depois do golpe, um comunicado da junta militar determinou que
todos os estrangeiros deveriam se apresentar na Delegacia de Estrangeiros. Em Concepción havia poucos brasileiros,
menos de trinta, todos apoiadores do governo de Allende e ilhados em
uma cidade sem embaixadas. Portanto, não havia alternativa, teríamos que nos
apresentar.
Organizamos uma reunião com os brasileiros que pudemos localizar e foi decidido que
Renato e eu seríamos os primeiros a nos apresentar. O motivo era simples: éramos os únicos que possuíam
o passaporte brasileiro válido e o visto chileno de permanência em dia. Depois, estabelecemos
uma ordem para a apresentação dos demais. Caso não voltássemos, alguns não se
apresentariam porque, certamente, seriam presos por terem saído
clandestinamente do Brasil e por estarem visados no Brasil.
Vesti
minha melhor roupa, calcei meus sapatos novos e fomos nos apresentar. Ao chegarmos lá demorei a entender que deveria obedecer à ordem de "mãos ao alto". Depois disto, houve um incidente
tragicômico: ao revistar a bolsa que eu levava o policial encontrou o meu desodorante comprado no Brasil (e não me
perguntem porque ele estava lá!). Era de um desodorante em bastão que ainda não havia no Chile: a embalagem era um cilindro de plástico preto que, com o uso, teve as letras do rótulo apagadas. Pois não é que o policial achou
que era uma bomba?! Foi difícil, mas conseguimos que ele abrisse. Por sorte, não
explodiu, rsrs.
Nos deixaram em uma sala cheia de estrangeiros, onde não havia
cadeiras para todos. Lá pelas tantas, os europeus foram liberados e nós ficamos. Ninguém
nos dizia que estávamos presos, mas não podíamos ir embora.
No
final da tarde, ainda sem nenhuma explicação (e sem comer desde o café da manhã), embarcamos em um ônibus dos
carabineiros e fomos levados para o Estádio Regional de Concepción. Ficamos em um dos vestiários, embaixo das arquibancadas de concreto, um lugar
horrível, úmido, frio e sem janelas. A partir deste momento estávamos sob a guarda do
exercito chileno e não mais da polícia civil. Dava para perceber que tudo estava muito bem planejado. Ninguém falava conosco, não nos explicavam nada, já era noite
e estávamos com muita fome.
Apesar
de todo o medo, um fato me tranquilizava: ali conosco estava um paraguaio, meu colega de aula, que era sobrinho de Stroessner, o então ditador do Paraguai.
Ainda sem termos sido identificados, de novo em um ônibus dos carabineiros, fomos transferidos para a Base Naval de Talcahuano, a 15 km de Concepción. Para meu desespero, meu colega não foi conosco, foi liberado... A partir daquele momento, estávamos sob a guarda da marinha chilena e o medo aumentava!
Chegando
à base, ainda no continente, fomos levados para o ginásio de esportes onde já havia outros presos, mas nenhuma mulher. Os
homens ficavam deitados no chão, no centro do estádio, de barriga para baixo,
com as pernas abertas e com a cabeça sobre as mãos e nós sentadas nas
arquibancadas, bem separados umas das outras. Éramos somente nove, enquanto que os homens já eram algumas dezenas.
Lá encontramos muitos amigos e colegas chilenos.
Antes
do golpe, já tínhamos ouvido falar dos cossacos, como era chamada a tropa de elite da marinha. Em agosto, antes do golpe, havia
surgido uma denúncia de que marinheiros leais ao governo haviam sido presos e
torturados por eles na base naval onde estávamos. Eram eles que vigiavam as mulheres, sentados próximos de nós nas arquibancadas. Foi quando aconteceu um fato surpreendente, quase inacreditável: os temidos cossacos, mesmo sem saber quem éramos nos passavam sanduiches às escondidas.
No final da noite fomos identificados e apesar de não nos darem nenhuma informação, agora tínhamos certeza de que
estávamos presos!
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