VÓ, ME CONTA A SUA HISTÓRIA? Parte I

Em outubro de 2023, no meu aniversário, ganhei da minha neta Luiza um livro com espaços em branco para serem preenchidos com as minhas respostas. O nome é: “VÓ, ME CONTA A SUA HISTÓRIA?”.

E eu resolvi responder às perguntas do livro aqui, onde o espaço é infinito. 
Espero que ela não fique com preguiça de ler.

Quando e onde você nasceu?
Nasci em Porto Alegre no dia 22 de outubro de 1947, uma quarta-feira, ao meio-dia e quinze minutos, sob o signo de Libra e com ascendente em Aquário (os dois signos de ar), no hospital Beneficência Portuguesa. 
Sempre me contaram que, quando nasci, eu era só "olho e cabelo", rsrs.
Minha mãe, Norma Maria (mas todos a chamam apenas de Norma), era filha única. Meu pai, José Miguel (o apelido era Zeca), tinha quatro irmãos. Por ordem "de chegada": João, meu pai, Iolanda,  Theresa e Paulo (eram gêmeos).
Vivíamos na casa da minha avó materna, Elvira Haensel e minha bisavó Glória, também morava conosco.
Meu avô materno, Rodolfo de Bagno, morava em São Paulo. Estava separado da minha avó quando a minha mãe completou quatro anos. 
Os avós paternos eram Dulce Gomes Sampaio e João Pereira de Sampaio, o Desembargador Sampaio. Moravam em um sobrado na Rua Duque de Caxias, pertinho de nós.
Fui a primeira neta de todos eles! 
Meus pais era muito jovens quando eu nasci. Minha mãe tinha 18 anos e meu pai, 20 e meus tios eram adolescentes.

Sei,porque me contaram, algumas passagens interessantes:
- naquela época, tradicionalmente, já no hospital furavam as orelhas das meninas para colocar brinquinhos de ouro. Meu pai não quis que furassem as minhas e disse para a enfermeira (que era uma freira): “- se furarem as orelhas vão ter que furar o nariz também.”
Contam que a coitada saiu apavorada. Só os indígenas usavam "brinco" no nariz, rsrs
Graças a isso, só consegui furar as orelhas quando já era adulta porque tinha medo da dor.

Antes do meu nascimento, meus pais tinham uma cadela collie chamada Doli. No mesmo dia em que me levaram para casa, quando entraram no meu quarto, ela estava me "olhando", com as patas da frente apoiadas nas grades do meu berço. E, eles se assustaram, ficaram com medo que ela me atacasse e resolveram levá-la embora.

Meu pai a levou para a casa de um amigo que morava num bairro muito distante do nosso. Mas, alguns dias depois, ela estava de volta - muito suja e com as patas machucadas. Depois dos ferimentos tratados, foi levada para a casa de outro amigo que morava numa ilha do Guaiba. Como a ponte ainda não existia, ela nunca mais voltou. Será que era mesmo preciso fazer isto?

Qual é o seu nome completo?

Meu nome é Maria Lucia Pereira de Sampaio. Fui registrada apenas com o sobrenome do meu pai porque a minha mãe, quando casou, ficou só com o sobrenome dele.
Sei que havia três nomes escolhidos caso nascesse uma menina: Maria Lucia, Maria Cristina e o outro que era Maria "alguma coisa", eu esqueci. Se fosse um menino, seria Paulo de Tarso.
Naquela época, só se sabia o sexo do nenê na hora do nascimento. 
Quando meus filhos nasceram, nos anos 1970, também era assim e acho que é muito mais emocionante. Não se tinha este hábito atual de meninas só usarem cor de rosa e meninos, azul, portanto, se preparava o enxoval com roupinhas de várias cores!

Você tinha um apelido carinhoso?
Sim, Zazá, apelido que o meu tio João, o irmão mais velho do meu pai, me deu. 
No carnaval do ano em que eu nasci, fez muito sucesso uma marchinha de carnaval que perguntava: 
“-Cadê Zaza?”. Ele perguntava pra mim e eu ria, faceira.

Podem escutar aqui:
https://youtu.be/bX7oEfua7aY?si=zDP7pVhXtLbHXWsJ
Não é bonitinha?
Depois, já adulta, ganhei o apelido de “Macaca”. Algumas pessoas nem sabiam o meu nome. Mas essa é uma história para ser contada depois.

Como você era quando criança?

Era uma criança muito bem-comportada e quieta, um pouquinha diferente do que sou hoje. E era muito curiosa, como ainda sou. Contam que quando eu ia fazer uma visita em uma casa que eu não conhecia, tinha uma espécie de rotina: pedia água para conhecer a cozinha e depois pedia para ir ao banheiro, só para conhecer o resto da casa.

Um sinal de como eu era bem-comportada é que eu usava tranças e, quando voltava da escola, as tranças estavam impecáveis e, além disto, eu não me sujava. Isso era motivo de orgulho para a minha mãe.
Até os nove anos fui muito obediente, mas depois mudei. Saímos da casa onde morávamos, perto dos meus avós, e fomos viver em um apartamento. Lá comecei a conviver com meninos e meninas da minha idade e deixei de ser tão quietinha.

Você tinha algum ídolo que gostava de imitar?

Era um tempo muito diferente dos tempos de hoje, não lembro de termos ídolos para imitar, mas, tinhamos ídolos, sim. O primeiro que me lembro, foi Bellini, capitão da seleção brasileira na primeira Copa do Mundo que o Brasil conquistou, em 1958. 
A foto dele levantando a taça apareceu na capa de todos os jornais e revistas e eu achava ele lindo!
...e eu não tinha razão?

Eu também adorava a Emília, a boneca falante dos livros infantis de Monteiro Lobato, mas nunca pensei em imitá-la e nem a tinha como "idala".

Que lembranças você guarda de quando era criança?
Nossa casa ficava em frente ao Colégio das Dores, um colégio católico onde meu tio Paulo estudou. Os professores eram todos padres e usavam uma batina, uma roupa preta que vai até o chão. Hoje, no Brasil, eles quase não usam mais, mas em Roma (onde a foto foi feita) ainda se vê.
Os guarda-chuvas, em sua maioria, eram pretos. Quando eu estava aprendendo a falar, meu pai me ensinou que os guarda-chuvas e os padres eram o “Bu” (palavra que, não por acaso, lembra “urubu”) Moral da história: cada vez que passávamos por um padre, eu apontava e dizia “bu”. Ele sorria para a criancinha inocente, e o meu pai morria de rir.
Nesta foto, dá pra ver bem a semelhança entre os dois:


Antes de nos mudarmos para o apartamento, eu só tinha dois amigos, que moravam na casa ao lado da nossa, o Luís Artur e a Maninha, que eram irmãos.
Só brincava com eles e, principalmente, de teatro. Lembro de uma das “peças” que mais gostávamos de representar: a história do Peter Pan. O Luiz Arthur dirigia e era o personagem principal, o Peter Pan, a Maninha fazia a Sininho e eu era a bem comportada Wendy. 
Como no desenho da Disney, nós voávamos, mas de mentirinha. Não por acaso, ele se tornou diretor de teatro e ela atriz.
Tinham três tios médicos e, na casa deles, havia muitas amostras gratis de medicamentos . Uma das nossas diversões era fazer “chover”: ficávamos em uma janela do segundo andar, abríamos aquelas cápsulas de plástico colorido e fazíamos chuva em pó.
Lembro também que o Luiz Arthur aprendeu na escola que, antigamente, as pessoas usavam mel ao invés de açúcar para adoçar. Então passou a usar só mel, mas não lembro quanto tempo isso durou.

Eu gostava muito do meu gato com pelo “cor de fogo”, o Foguinho. Quando nos mudamos para o apartamento, ele não foi conosco e me explicaram que ele tinha desaparecido. 
Hoje imagino, e espero, que ele tenha sido deixado com alguém. Devem ter pensado que ele não se acostumaria a viver lá. Ou, quem sabe, acharam que no apartamento ele daria muito trabalho? 
Eu acreditei na história e senti muita saudade dele.

Quando eu era pequena, meu pai sempre me levava na casa dos meus avós paternos e eu adorava ir lá!
No final da tarde, ele e os meus tios mais moços, Paulo e Theresa, iam para o fundo do quintal levando umas vassouras com o cabo bem alto, que serviam para limpar o forro das casas, que também era alto. 
E o que iam fazer? Interceptar o voo dos pobres morcegos.
Depois, se transformaram em ferrenhos defensores dos animais.

Meu pai e meu tio, também tiveram uma coleção de aranhas enormes. Elas Ficavam dentro de uma lata de tinta bem grande com uma tela de metal para que não fugissem e caçavam moscas para alimentá-las.
Dá pra acreditar? Pois é, mas ninguém me contou, eu me lembro!

Também tinham um macaquinho chamado Chico. 

Quais eram as pessoas e as coisas mais importantes para você?
As pessoas mais importantes eram as pessoas da família que conviviam comigo, meus pais, meus avós e minha bisa. Depois vinham as professoras, os amiguinhos...
Quais seriam as coisas importantes? Não sei responder...

Quando você era criança teve alguma doença séria?
Tive mais de uma!
Como já contei, eu era uma menina quieta. 
Quando eu tinha oito anos fui, com a minha mãe, visitar a minha madrinha de crisma, que tinha uma filha da minha idade. Ela era uma moleca, completamente diferente de mim. Fomos brincar de pular os muros da frente do edifício dela. Não eram altos, mas eu me atrapalhei, cai e bati com força o queixo, sem conseguir pular.
À noite, tive uma febre muito alta e me levaram para o Hospital de Pronto Socorro. O diagnóstico foi comoção cerebral (que hoje se chama concussão cerebral), que acontece quando o cérebro dá uma sacudida dentro da cabeça. Precisei ficar hospitalizada por cinco dias e, até hoje, lembro das palmeiras da Avenida Osvaldo Aranha que eu via da janela do quarto.
Depois, precisei ficar um mês deitada num quarto escuro, porque era o tratamento indicado na época. Como eu era muito boa aluna, no final do ano fui aprovada.
Durante bastante tempo fiz, anualmente, um eletroencefalograma para ver se o meu cérebro continuava funcionando bem. Felizmente, estava tudo em ordem e fui dispensada do exame.

A outra doença que tive também foi séria. No Grupo Escolar (escolas públicas de ensino básico), em que eu estudava, periódicamente, um médico nos examinava. Um dia, ele escutou alguma coisa diferente no ritmo do meu coração e me encaminhou para fazer exames. Descobriram que eu tinha um “sopro funcional" no coração. Por sorte, não era nada muito sério e, com o tempo, sumiu. Mas foi um grande susto para a minha família, mas eu nem me dava conta de que poderia ser uma doença grave.
Depois, soube que o médico que fez os exames era o cardiologista mais importante da cidade, o Dr. Faracco. Portanto, estive em boas mãos!

E houve uma terceira doença! Não sei como descobriram que eu tinha uma “bolinha” no pulmão. Outro susto! Só havia um hospital em Porto Alegre onde eu poderia fazer os exames que precisava. Lembro do exame: tive que tomar uma gosma branca sem gosto, muito nojenta, para que os médicos pudessem ver melhor a tal “bolinha”. Eu ficava de pé atrás de um vidro enquanto eles me observavam e comentavam. Eu não escutava, só via. No fim, descobriram que era um “nódulo calcificado” e que nem precisava tratamento.

Lembro também que, quando os filhos das amigas da minha mãe ficavam com doenças comuns naquela época, como sarampo e cachumba, ela me levava à casa delas para eu “pegar”a doença, já que eram transmissíveis. Naquele tempo, ainda não havia vacinas e, como não eram consideradas doenças graves, achavam melhor ter logo. Só que eu nunca “pegava”, rsrs
Uma grande preocupação da minha mãe era a minha magreza e o fato de eu ser muito branquinha, meio amarelada. Mais de uma vez ela me levou ao médico porque achava que eu estava anêmica. E sempre recebeu o mesmo diagnóstico: - “ela está saudável.”

Você tinha algum brinquedo preferido?
Eu tinha um livro-musical que se chamava “Mary tinha um carneirinho” e que eu adorava. Vinha com um teclado, com as teclas numeradas. No livro estavam as letras da música e os números que correspondiam às notas da melodia.

e, se quiserem escutar a melodia, é só acessar:
https://youtu.be/t-E6kDG4g88?si=ebQKyH4A1bp6NZts
Soube depois, que a melodia tinha origem no século XIX.

Sempre gostei de música e queria muito aprender a tocar piano. Minha mãe não deixava, porque nós nunca teríamos dinheiro para comprar um, e nem para eu frequentar aulas de piano. Naquele tempo, os pianos eram caríssimos (acho que ainda são) e os teclados ainda nem tinham aparecido por aqui.
Meu amigo, Luís Artur tocava e eu morria de inveja!

Ao invés de me deixar aprender piano, ela praticamente me obrigou a estudar balé. Mas havia um motivo: eu parava com os “pés para dentro” e, naquela época, só existiam duas alternativas para corregir: usar botas ortopédicas pretas e horrorosas, com uma palmilha de metal ou fazer balé. Estudei durante nove anos e nunca gostei, mas ganhei um diploma reconhecido pela Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul e uma boa postura!
Em todo final de ano, a escola apresentava um espetáculo no Theatro São Pedro. Era o grande momento do nosso professor, quando todas as alunas se apresentavam, inclusive eu.

1953/ na minha primeira apresentação fui um coelho.


Vou parar por aqui porque já está ficando muito longo e eu quero que a minha netinha leia!
E continua no próximo capítulo...

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