Quando nasci, minha família morava numa casa muito grande, na rua Riachuelo, em Porto Alegre. Na frente da casa, ficava um colégio de padres salesianos que, naquele tempo, usavam batinas pretas: o Colégio Nossa Senhora das Dores. Meu pai, um anticlerical muito irreverente, me ensinou que tanto os padres quanto os guarda-chuvas se chamavam Bu. E eu, bem pequenininha e toda feliz, cada vez que via um deles, um padre ou um guarda-chuva, apontava e dizia: buuuuuuuuuu. Era um sucesso: “tão engraçadinha”, rsrs. Mas, será que havia alguma semelhança com a palavra urubu? Neste tempo, eu tinha dois amigos que moravam na casa ao lado da minha: o Luiz Artur e a Maninha. Ele, um pouco mais velho do que eu, estudava piano, o que me deixava morta de inveja. Eu também queria tocar, mas minha mãe dizia que nunca teríamos condições financeiras para comprar um piano e por isto eu não podia aprender. E me obrigou a estudar balé, que eu odiava, porque eu tinha os “pés pra dentro”! N...